Corro atrás de mim incessantemente
mas vivo atrasada
e persigo o eco de mim.
Procuro a minha sombra,
mas é sempre meio-dia
e os despojos de ontem estendem-se ao amanhã
que é sempre hoje.
E o hoje nunca é porque sempre se esvai antes de ser.
Fico a sós
com o mundo a fugir-me a cada instante
e tento esquecer o tempo,
mas falho
porque o tempo sou eu e eu sou o tempo.
Por isso fujo-me de mim
e sou sem ser o ser lá fora
porque estou cá dentro e não lá fora
e olhar para dentro de dentro
não é como olhar de fora
e quem está fora não vê por dentro.
Eu vejo cá de dentro
porque cada dentro
quando está lá fora
não está lá fora mas cá dentro.
E com isto sou forçada a cerrar os lábios
porque o que quero gritar
está aquém da palavra
e além do pensamento.
Pensar o dentro cá de dentro dói
porque pensar o dentro sem estar dentro nem fora
é ficar em carne-viva,
porque se vai para fora sem sair de dentro.
É querer sair para o mundo,
mas o mundo sou eu e eu sou o mundo,
se me deixar trancar por entre um jogo de espelhos
que reflecte tudo e o nada até ao infinito.
Mas onde fica o infinito?
E onde fico se fico no infinito?
Para lá da palavra não posso
e por isso estou presa na casa do mundo.
Mas onde fica essa casa?
Calo-me
falante de outros modos
que não estão senão no âmago do tudo
que é inefável.
E por último páro.
Quanto mais fujo
mais me aproximo de mim.
Perplexa
diante de mim
vejo-me e firo a vista
por ver de cada vez pela primeira vez.
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